As datas especiais e o consumo de valor

No Dia das Crianças surge aquela velha questão: comprar ou não comprar presente? Se pedirmos a opinião de qualquer pessoa, a resposta provavelmente será a mesma: “é claro que precisa comprar, é uma data especial!”. O mesmo vale para qualquer outra data festiva: aniversários, casamentos e toda sorte de momentos importantes que ocorrem em nossas vidas.

Como não fazer uma super festa para comemorar o primeiro ano de uma criança, se essa data “jamais se repetirá”? Como não gastar muito dinheiro numa festa de casamento, se “só acontece uma vez na vida”? Em outras palavras: será que, ante um acontecimento especial em nossas vidas, somos autorizados a deixar de lado a segurança para celebrá-lo sem pensar no amanhã?

As datas especiais

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Foto por Rene Asmussen em Pexels.com

Vamos pensar um pouco a respeito do que consideramos “datas especiais”: esses eventos normalmente são celebrações de estados considerados importantes ou de passagem. Dessa forma, comemoramos por exemplo o fato de sermos mães, pais, crianças, ou a passagem do status de solteiro(a) para casado(a), a aquisição de mais um ano de vida, etc. Os ritos de passagem existem há muito tempo e servem principalmente para amenizar essa transição, que sem isso seria mais traumática, e para celebrar frente à sociedade o status adquirido. Realizados de formas variadas em cada região do mundo, esses ritos foram se alterando até que chegamos ao que vemos hoje.

Sua importância se mantém, mas em intensidades diferentes. Isso porque nossa sociedade não segue mais padrões tão definidos quanto antes: alguns casais começam a morar junto antes de se casarem, algumas crianças assumem responsabilidades importantes muito antes da idade considerada adulta e muitos adultos não assumem responsabilidade nenhuma mesmo depois de velhos.

Ou seja, os ritos de passagem, embora continuem importantes, não precisam ser vivenciados da mesma forma por todos porque cada um vive as transições de forma diferente. Isso não significa, porém, que essas datas importantes não devam ser comemoradas: significa apenas que não há mais motivos para nos apegarmos a modismos e ideias fechadas de celebração.

A comemoração

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Foto por Pixabay em Pexels.com

Se não é mais necessário seguir padrões predefinidos, por que continuamos reproduzindo o que é posto pela sociedade? Por que o aniversário de uma criança deve ser realizado por uma empresa especializada e rios de dinheiro devem ser gastos nesse dia? Por que é preciso fazer uma festa de casamento que deixará o novo casal endividado? A resposta é uma só: porque as pessoas querem se sentir fazendo parte da sociedade, ainda que isso signifique praticar atos sem sentido e prejudiciais para si próprias.

Na era das redes sociais em que vivemos é óbvio que a imagem vale mais do que a vida real. Se casou, tem que mostrar; se teve filho, tem que mostrar; senão, é como se não tivesse acontecido. Nos esquecemos de que a vida é muito mais do que os outros veem; a vida é feita do que é vivido e não do que é postado. Por isso é essencial que cada um tenha autonomia para descobrir o que faz sentido em sua vida e vivenciá-lo.

Datas especiais devem sim ser comemoradas, pois todo motivo de alegria deve ser abraçado. Entretanto, não conseguiremos sentir a real felicidade advinda desses eventos se nos mantivermos atados ao que os outros colocam como melhor, ao invés de ouvir o que importa para nós. Nossa vida não diz respeito a ninguém e a forma como comemoramos nossas conquistas (e quais são elas) também não devem importar a ninguém além dos que as vivenciam.

A vida além da data especial

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Foto por Trinity Kubassek em Pexels.com

Isso nos leva a pensar a respeito da vida que existe além daquela data: a vida a dois que virá depois do casamento, o crescimento da criança que comemora um aniversário, os dias que antecedem e precedem qualquer festa. Nossa vida não é feita apenas de datas especiais, mas é composta em sua maioria por dias “normais”, do cotidiano duro, que exige disposição para ser aproveitado com alegria.

As ideias pré-formadas e repetidas incessantemente como “nunca mais você terá essa data para comemorar” ou “você merece fazer uma extravagância só hoje” programa nosso cérebro para viver esperando as datas especiais, gerando ansiedade e melancolia no dia a dia. A questão que sempre levantamos por aqui, de aproveitar a caminhada e as felicidades que surgem, é esquecida para dar lugar à ideia de que apenas alguns dias de nossas vidas valem a pena ser vividos de forma intensa, enquanto todos os outros são apenas de espera pela felicidade. Essa forma de pensamento é tão presente em nossa sociedade que existem até consórcios e financiamento para pagamento de festas, tudo para que pessoas que não possuem o dinheiro necessário possam realizar seus desejos pagando juros.

Celebrar ou não?

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Foto por Helena Lopes em Pexels.com

É muito importante que alimentemos sonhos, mas é preciso pensar a respeito deles e se são realmente necessários e importantes para cada um. Celebrar as datas especiais é importante e faz toda a diferença em nossa vida, mas precisamos pensar a respeito de como deve ser essa celebração, o que faz sentido em nossa vida e o que nos deixará realmente felizes.

A análise a respeito de quem somos e de nossas possibilidades deve vir antes da análise sobre o que esperam de nós. Além disso, é importante lembrarmos que o sofrimento é natural e deve ser vivido de forma saudável (por adultos e crianças). Por isso, pense sobre qual sofrimento será maior: não ter uma super festa ou ficar endividado? Explique para a criança que os recursos são limitados e que é mais importante para ela estudar numa escola boa, por exemplo, do que fazer uma festa cara, e que um necessariamente exclui o outro.

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Foto por Agung Pandit Wiguna em Pexels.com

Sucesso é viver da nossa forma, cuidando do nosso presente e futuro. Todas as pessoas devem aprender a lidar com a falta e com a incompletude porque essa é a nossa realidade. Por isso, pensemos a respeito do que é importante para nós e vivamos da forma mais benéfica para nós e para a sociedade.

Nesse dia das crianças, comemore muito com os seus filhos, mas mostre a eles que a maior alegria não vem de bens de consumo, mas da união da família e de momentos de alegria que independem de dinheiro. Ensinemos as nossas crianças a serem felizes fora do shopping!

7 comentários sobre “As datas especiais e o consumo de valor

  1. Simplesmente ameiiiiii!!!! Essa é post falou tanto de tudo que vivi na minha festa de casamento, decidimos fazê-la pela importância que a cerimônia religiosa tinha pra nós, mas tudo dentro das nossas possibilidades e sem perder o foco principal, eu e meu marido. Muitas pessoas vieram dar palpites por nossas filhas do “tradicional” e consequentemente mais caro, mas eu sempre explicava que os detalhes, eram apenas detalhes, que a magia que estaria na atmosfera daquele lugar, para nós, era o mais importante.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Que legal, Marcela!! É isso mesmo, se escutarmos todos os palpites, acabamos com celebrações que não fazem sentido para nós e que nos custam mais do que podemos pagar (financeira e psicologicamente). O importante é comemorar do nosso jeito! 😉

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  2. Adorei seu post! Já pulei alguns ritos e sempre alguém vem criticar. As vezes estamos vivendo momentos de alegria e as pessoas estão mais preocupadas em filmar e tirar fotos do que aproveitar. Eu me policio para não acabar assim, vivendo a vida pela lente de um telefone.

    Curtido por 1 pessoa

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