A felicidade mata?

Que o fracasso causa medo, todo mundo sabe, mas o que nem sempre percebemos é que o sucesso também assusta muito, por vezes nos paralisando e não deixando que avancemos na vida. Somos levados a acreditar que desejamos e estamos prontos para sermos felizes, mas assim que conseguimos as ferramentas para chegar aonde pretendemos, nos limitamos e nos sabotamos por puro medo.

Mas por que sentimos medo, se o sucesso e a felicidade são coisas boas? A resposta é simples: porque, assim como nada é totalmente ruim, também não existe nada que traga apenas consequências positivas, e nós sabemos disso, ainda que inconscientemente. Hoje falaremos sobre o nosso medo da felicidade (e do sucesso), porquê ele existe e como enfrentá-lo.

O destaque

group of people sitting on white mat on grass field

Todos sabemos que os seres humanos são seres sociais. Crescemos buscando o pertencimento a grupos e não suportamos ficar sozinhos. Precisamos de uma rede de apoio, de pessoas que vivam as mesmas situações que nós e nos compreendam. Isso explica parte do medo que sentimos do sucesso, pois, com ele, somos destacados do grupo ao qual pertencíamos e nos vemos sozinhos, em uma nova situação e tendo que buscar um novo grupo que não sabemos se irá nos aceitar.

Ter sucesso significa sair de onde estamos e ir a outro lugar; esse novo local é desconhecido para nós, e nós tememos o desconhecido. Não sabemos o que acontecerá quando sairmos do status em que nos encontramos e nos aventurarmos em um novo mundo. Também não sabemos como os outros nos receberão com esse novo status, estranho também para eles. Por isso preferimos ficar onde estamos, no aconchego do conhecido, das pessoas que sabem o que esperar de nós e, muitas vezes, da mediocridade.

A inveja

pexels-photo-905947.jpegÉ comum ouvirmos que “só se conhece um amigo verdadeiro quando passamos por dificuldades”. Certamente essa ideia tem um fundo de verdade, pois a maioria das pessoas não aceita lidar nem com as próprias dificuldades, quem dirá com as nossas. Mas nós sabemos que, mais difícil do que um amigo que continua amigo no nosso fracasso, é um amigo que continua amigo no nosso sucesso.

Infelizmente vivemos numa sociedade de pessoas acomodadas, satisfeitas em viver a vida vendida pelo mercado, cuja base é trabalhar para consumir. Poucas são as pessoas que buscam algo além dessa rotina, que buscam o que faz sentido para elas. As que tentam e conseguem, que alcançam a felicidade por buscar o verdadeiro sentido de suas vidas, mesmo sem querer acabam lembrando às outras de seu comodismo e pequenez. Quem nunca entrou numa disputa de “quem tem a pior vida” com alguém? Fazemos isso porque nos envergonhamos da nossa felicidade e do nosso sucesso. Esse é mais um dos motivos para temê-lo: para que os demais não se sintam incomodados, o que faz com que, mais uma vez, vivamos de acordo com o que os outros esperam de nós.

A responsabilidade

pexels-photo-235554.jpegNem só de prazer vive a pessoa feliz: quem é bem sucedido, quem encontrou um sentido para sua vida e se sente feliz por isso, recebe uma carga de responsabilidade apenas por ter alcançado essa condição. Em meio a tanta gente miserável, que se queixa por tudo que falta (ou que pensa faltar) em sua vida, alguém que finalmente entendeu o que o torna satisfeito sente a responsabilidade de ajudar os demais a sair do ciclo de infelicidade imposto pela sociedade.

É aí que aparecem os “chatos”: o chato da ecologia, do consumo consciente, os apaixonados por determinado assunto… porque eles são como ilhas que querem tornar-se continentes. São pessoas que encontraram um sentido maior do que si mesmos e querem mostrar a todos que a vida é muito mais do que comprar, reclamar e trabalhar sem vontade. Eles sentem a responsabilidade de participar de algo maior e tentam ajudar os outros a alcançar o mesmo (na maioria das vezes, sem sucesso); e isso também nos dá um baita medo da felicidade: porque sabemos que nós, ao encontrarmos o que nos dá sentido, teremos a responsabilidade de ajudar os outros a também serem felizes.

A perda

woman wearing pink top

Lembra que mencionamos que nada é totalmente ruim? Pois é, quando nossa vida é desprovida de significado, vazia e infeliz, temos uma vantagem: não temos nada a perder. Sabemos que se não nos esforçarmos, se continuarmos sobrevivendo, não construiremos nada, não alcançaremos nada, e, portanto, nunca perderemos nada de importante.

Talvez a maior explicação para o medo da felicidade seja o imenso medo de perder o que conquistamos. Preferimos viver sem a felicidade a corrermos o risco de perdê-la. Nos acomodamos, covardes em nossas vidinhas, e sempre que o sucesso bate à nossa porta, corremos sem olhar para trás. Tememos o sofrimento que pode vir quando aquele ciclo acabar, pois sabemos que nada é absoluto.

O que fazer com o medo?

woman stands on mountain over field under cloudy sky at sunrise

O medo faz parte de nossas estruturas mais ancestrais e não será nunca suprimido. Nossa meta não deve ser não ter medo, mas superá-lo. Apenas quando realmente nos entregarmos à felicidade ou à chance de sermos felizes é que veremos o lado de lá, o desconhecido, o sucesso, e descobriremos se nossos medos tinham fundamento.

Descobriremos se realmente estaremos sozinhos, pois talvez encontremos pessoas ainda mais compatíveis com quem somos e quem desejamos ser. Talvez do lado de lá descubramos que as pessoas que nos invejam deveriam ser as primeiras a tirarmos de nossas vidas, pois quem realmente nos ama quer nos ver felizes. Talvez sintamos um prazer imenso em tentar ajudar os outros a alcançar o que temos. Talvez compreendamos que a felicidade não precisa durar o tempo todo, pois o período em que desfrutamos dela nos dá forças para passar pelas provações mais difíceis.

Apenas quando enfrentarmos nosso medo teremos a oportunidade de alcançar o que realmente desejamos e sermos felizes, com a certeza de que cada momento bem vivido vale mais do que toda uma vida sem sentido.

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