O consumo de ideias

Quando falamos sobre consumismo normalmente pensamos em objetos materiais que compramos em lojas, serviços que contratamos ou até experiências que adquirimos (como viagens, por exemplo). Entretanto, os itens vendidos pelo mercado não se resumem a esses.

Há uma outra classe de produtos que são vendidos diariamente, a cada momento e em grande quantidade. Esses produtos são incorpóreos e, por isso mesmo, ainda mais perigosos: são as ideias e crenças que fazem com que fiquemos cada vez mais emaranhados na teia do consumismo. São elas que nos levam a comprar os produtos materiais apresentados como “sonhos de consumo” e como itens que possuem a capacidade de nos transformar em pessoas melhores. Na verdade nós só consumimos esses produtos por que compramos primeiro essas crenças, vendidas em grande escala no mercado de ideias.

O mercado de ideias

night-television-tv-theme-machines.jpgNós, praticantes do consumo de valor, sabemos que depende de nós a busca pela felicidade, mas sabemos também que estamos o tempo todo sujeitos às influências da sociedade de consumo. Como exemplo podemos citar os padrões de beleza e de consumo inalcançáveis apresentados pelas propagandas como ideal de vida, que contribuem para que fiquemos cada vez mais desesperados e submersos no consumismo. Embora as propagandas sejam o meio mais óbvio de manifestação das ideias vendidas pelo mercado, não é o único canal pelo qual ele opera.

O mercado de ideias é especialmente perigoso por causa de sua característica onipresente: ele está em todos os lugares e já assumiu seu lugar inclusive na cabeça das pessoas. Além disso, tem a capacidade de se camuflar, não permitindo que vejamos essas crenças como produtos.

pexels-photo-823723.jpegÉ fácil perceber, depois de uma boa olhada, ideias sendo vendidas o tempo todo e em todos os lugares: nas notícias que fingem anunciar tendências mas que na verdade as estão criando, nas redes sociais em que todos vivem competindo e até nos grupos de amigos que esperam de nós certos padrões de consumo. Sim, até as pessoas que vivem à nossa volta julgam as nossas escolhas e nos tentam vender ideias e crenças que, mesmo sem elas saberem, têm apenas um objetivo: nos manter submissos ao mercado.

A questão é: se essas ideias levassem a algo bom, nossa sociedade não estaria no estado em que está, não é verdade? Se o discurso do consumismo fosse real e bastasse o consumo para nos fazer felizes, estaríamos todos nos sentindo plenos com as coisas que temos, o que sabemos que não acontece (apesar da maioria das pessoas ter muito mais do que realmente necessitam para viver). Por isso, se queremos consumir melhor, precisamos perceber e nos afastar do senso comum, vendido pelo mercado e repetido pela maioria, e que só leva a mais consumismo.

Se afaste do que te faz mal

pexels-photo-239324.jpegPense no seguinte: que tipo de notícia costuma chegar até você? Os jornais televisivos e os sites de notícia parecem focados apenas em espalhar o terror e o desespero. Sabemos que muitas pessoas nascem, conquistam coisas e amam diariamente. Coisas boas acontecem o tempo todo, conosco e com os que vivem à nossa volta (e provavelmente com muitas outras pessoas ao redor do globo). Apesar disso, o que ouvimos da imprensa é apenas o ruim, as desgraças da humanidade.

Um dos valores essenciais para nossas vidas, a esperança, é cada vez mais suprimido pelas informações vendidas para nós. Como continuaremos a nossa busca pelo aperfeiçoamento se perdermos a esperança em nossa espécie? Como seremos felizes? A resposta óbvia é: não conseguiremos. E é exatamente isso que o mercado quer, que fiquemos cada vez mais tristes. Com isso, ele alimenta o consumismo desvairado e a busca por felicidade através de compras cada vez mais vazias de significado, o que só perpetua esse ciclo vicioso.

pexels-photo-974885.jpegO próprio consumismo como caminho para se alcançar a felicidade é uma ideia bastante difundida e repetida em nossa sociedade. Quem nunca escutou (ou falou) que é preciso comprar um carro novo, uma casa nova ou ter uma baita festa de casamento para atingir a felicidade? Infelizmente o consumismo está tão arraigado em nós que muitas vezes transmitimos as ideias vendidas por ele sem nem mesmo perceber.

Quantas vezes nos pegamos olhando redes sociais e desejando a vida que o outro mostra? Quantas vezes seguimos sites e perfis que só incentivam o consumismo? Ou até nos esforçamos para estar com pessoas inseguras que precisam nos rebaixar para se sentirem bem?

Assim como o consumo não se aplica apenas a bens materiais, o desapego deve servir para tudo que nos faz mal. O ciclo virtuoso começa quando adquirimos autoconhecimento e conhecemos o que nos faz bem. Depois disso, nos afastar das ideias que nos são prejudiciais fica muito mais fácil. Mesmo quando não é possível nos afastar fisicamente, entendemos que cada pessoa é diferente e respeitamos as decisões dos outros, assim como respeitamos nossas próprias decisões e não cedemos ao que todos fazem, nem somos atingidos pelo julgamento alheio. O autoconhecimento nos arma com o que precisamos para sermos autênticos apesar das pressões da sociedade.

Consuma o que te faz bem

pexels-photo-374845.jpegA prática do consumo de valor não se limita a comprar melhor. Temos que prestar atenção nas ideias e informações que consumimos para que não nos sabotemos e caiamos no consumismo por pura tristeza, ou adotemos estilos e padrões que não correspondem a nós.

Para consumirmos melhor é essencial descobrir quem somos e adotar estilos de vida que nos façam felizes e que aumente nossa responsabilidade no mundo, ao invés de sermos levados pelas ideias que nos chegam. Evitar canais de informações negativas e pessoas que só julgam de acordo com sua própria visão de mundo torna nossa vida mais fácil e nos deixa muito mais leves para adotar as mudanças positivas que desejamos.

Lembremo-nos sempre de que somos responsáveis pelo que consumimos, sejam objetos ou ideias. Somos indivíduos e temos nossa própria forma de viver. Desde que compreendamos e respeitemos isso, não precisaremos seguir nenhum padrão nem fórmula de felicidade. Construiremos a nossa própria vida, com as nossas crenças e valores. E isso é consumo de valor.

8 comentários sobre “O consumo de ideias

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