O que é o alerta photoshop e sua relação com o consumo de valor

Na França, desde outubro de 2017, as fotos comerciais que trazem modelos modificadas por editores de imagem são acompanhadas pelo aviso “fotografia retocada“, a fim de evidenciar que houve alteração. Essa exigência, conhecida por aqui como “alerta photoshop“, trata do papel do mercado na autoestima e, por isso, tem tudo a ver com o consumo de valor.

A manipulação da beleza

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Sabemos que as modelos são cuidadosamente escolhidas entre pessoas com características raras. Para ter alguma chance nesse ramo, o mínimo que a mulher deve ter é altura e peso fora do comum. Além disso, antes de fotografar, elas passam por um processo minucioso de maquiagem, penteado e ambientação, tudo a fim de elevar ao máximo sua beleza.

Por algum tempo essas mulheres especialmente altas, magras e produzidas foram vendidas como o referencial de beleza, sendo apresentadas como o “normal”, o padrão que todas deveriam seguir. Apesar dessa medida já ter causado prejuízos à saúde pública, com casos crescentes de distúrbios alimentares e da imagem, o mercado não se satisfez: criou pessoas com características irreais. Com a ajuda dos editores de imagem, fez tantas alterações nas modelos que acabou por criar pessoas que simplesmente não existem, mas que são vendidas como o novo padrão.

O resultado

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É claro que qualquer pessoa se sente mal ao ser comparada com seres irreais e perfeitos, fabricados por computadores. E o que isso traz ao mercado? Mais consumismo. Cada vez mais pessoas entregando seu dinheiro em troca de cosméticos, maquiagens, cirurgias plásticas, suplementos alimentares e tantos outros produtos que prometem nos deixar mais próximos do padrão. Um padrão inalcançável e, por isso mesmo, perfeito para manter girando a roda do consumismo.

Esse consumismo, abastecido pelo desespero de parecer perfeito, traz inúmeros malefícios à sociedade, como depressão, endividamento e uma bizarra uniformização das pessoas (na aparência e além dela), culminando em mortes causadas por procedimentos mal sucedidos. A sociedade acaba doente, pobre e sem tolerância a diferenças.

A solução

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Todos nós temos aparência similar. Apesar de pequenas variações, nos reconhecemos como seres humanos e nos diferenciamos facilmente de outras espécies. O belo e o feio são julgamentos baseados em padrões eleitos pelo mercado. Mas como podemos julgar um ser humano com base em seres digitalmente criados e, portanto, irreais? E mais: como romper com esse padrão?

A saída, como sempre, é contra o consumismo: ele quer que nos pareçamos artificiais e iguais a todo mundo, porque isso é benéfico a ele. Então façamos o contrário: apreciemos o natural, o real, o humano. Apreciemos a diferença, o que nos faz únicos e o que nos diferencia. Somos todos da mesma espécie, somos parecidos, mas somos indivíduos, com corpos e pensamentos únicos. Por isso não podemos todos vestir a mesma coisa ou parecer da mesma forma. Procuremos formas de nos diferenciar no mundo e seremos capazes de apreciar a diferença nos outros.

Ou seja…

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O alerta photoshop vai mudar o mundo? Com certeza não. Mas pode mudar cada um que, ao ver a imagem de uma pessoa incrivelmente bonita na revista, se lembra de que aquela beleza não é real, e que o real tem mais a ver com diferenças do que com semelhanças. Que o belo está no que é humano, muito mais do que no digital.

A diferença no mundo é feita por cada pessoa, e para isso cada um precisa aceitar e apreciar o que o faz diferente e único, para que possa aceitar e apreciar a diferença do outro. Praticar o consumo de valor é isso: valorizar nossas particularidades e fugir da uniformização imposta pelo mercado. Em outras palavras, é sermos felizes por quem somos.

6 comentários sobre “O que é o alerta photoshop e sua relação com o consumo de valor

  1. Achamos a medida interessante, mas temos dúvidas sobre os efeitos práticos na produção de imagens para campanhas de Grifes. Cigarros no Brasil vem com imagens pavorosas impressas nos versos dos maços, mas continuam vendendo. A adoção da diversidade de biotipos (arianos, africanos, asiáticos, gordos, magros, etc…) na produção de imagens talvez traga mais resultados.

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    1. Concordamos que essa medida não chega nem perto de acabar com os problemas, mas o ponto positivo é que o pensamento geral está mudando. Medidas simples como essa servem mais para despertar o debate e mostrar às empresas que não “vale tudo” na hora de vender. Continuamos torcendo e lutando para que o consumismo seja repensado e, quem sabe um dia, tenhamos mais empresas jogando limpo em prol de seus clientes. 🙂

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